Filha de uma trabalhadora que não teve a oportunidade de aprender a ler e escrever, a cearense Rute Conceição Silva Rodrigues, de apenas 17 anos, conquistou um feito que transformou sua trajetória escolar em motivo de orgulho para a família: ela foi aprovada em quatro universidades internacionais para cursar Psicologia, incluindo algumas das instituições mais conhecidas do mundo, como Harvard e Cambridge.
Moradora do bairro Pirambu, em Fortaleza, Rute estuda na Escola de Ensino Médio Dr. César Cals, da rede pública estadual do Ceará. Além de Harvard, nos Estados Unidos, a jovem recebeu aprovação na Universidade Estadual da Pensilvânia, também nos Estados Unidos, na Universidade de Cambridge, na Inglaterra, e na Universidade de Nova York em Abu Dhabi, nos Emirados Árabes Unidos.
Apesar das oportunidades de estudar no exterior, a estudante ainda não decidiu onde fará a graduação. Isso porque ela também pretende prestar o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) para tentar uma vaga em Medicina na Universidade Federal do Ceará (UFC), onde deseja construir sua carreira e realizar o sonho de se tornar neurocirurgiã.
Jovem se candidatou a 20 universidades em diferentes países
O interesse de Rute por instituições estrangeiras surgiu ainda no 9º ano do Ensino Fundamental, quando começou a acompanhar, pelas redes sociais, relatos de estudantes brasileiros que conseguiram ingressar em universidades de outros países. A partir dessas experiências, passou a pesquisar por conta própria os requisitos e as etapas necessárias para concorrer a uma vaga internacional.
O processo de candidatura começou em 2025, quando a adolescente decidiu se inscrever em 20 universidades de diferentes países. Até o momento, recebeu quatro respostas positivas e continua aguardando o resultado das outras 16 instituições.
A preparação exigiu dedicação e investimento. Rute escreveu aproximadamente 60 redações, realizou o SAT, exame utilizado em processos seletivos de universidades norte-americanas, e participou de entrevistas com representantes das instituições para as quais se candidatou.
As despesas com inscrições chegaram, em média, a US$ 800. Para custear parte dos gastos e pagar cursos preparatórios, a estudante utilizou recursos que havia economizado do programa Pé-de-Meia, iniciativa federal de incentivo à permanência de jovens no Ensino Médio.
Pesquisa científica fortaleceu candidatura internacional
Além do desempenho escolar e do domínio do inglês, a participação em um projeto de iniciação científica foi um dos diferenciais apresentados por Rute durante as candidaturas.
Ao lado de outros estudantes, ela desenvolveu uma pesquisa que analisou discursos de criadores de conteúdo relacionados ao ambiente escolar. O trabalho foi apresentado em feiras científicas realizadas em Fortaleza e no Paraguai, e também tem previsão de participação em uma exposição em Recife, em novembro.
A estudante ainda frequentou aulas de inglês durante dois anos no Centro Cearense de Idiomas (CCI), na unidade Kennedy, e realizou cursos preparatórios para enfrentar as exigências dos processos seletivos internacionais.
Em entrevista ao Diário do Nordeste, Rute destacou a importância do interesse pelos estudos e do apoio financeiro recebido durante sua preparação.
“Eu sempre gostei bastante de estudar. Acho que é muito importante gostar de estudar para encarar o processo. E o Pé-de-Meia também foi super importante para custear alguns cursos”, afirmou.
Mãe que não foi alfabetizada sempre incentivou os filhos a estudar
A trajetória da jovem também é marcada pelo incentivo familiar. Rute mora com a mãe, que trabalha como camareira e realiza serviços de faxina, e com o irmão mais novo. Embora não tenha tido acesso à alfabetização, a mãe sempre estimulou os filhos a aproveitarem as oportunidades educacionais que não estiveram disponíveis para ela.
Segundo a estudante, a mãe costuma lembrá-los de que os dois têm a chance de construir um futuro diferente por meio da educação. Para Rute, as aprovações internacionais representam não apenas uma conquista individual, mas também o resultado do esforço e do apoio de toda a família.
“Ela diz: ‘vocês têm a oportunidade que eu não tive’, referindo-se a mim e ao meu irmão mais novo. Sempre recebi muito apoio da minha família e da escola. Por isso, meu diploma não será só meu, mas da família toda”, declarou.
Escola pública teve papel importante na conquista
Rute também atribui parte de seu resultado ao suporte recebido na Escola de Ensino Médio Dr. César Cals, instituição com 52 anos de história e reconhecida pelos resultados de seus estudantes no acesso ao ensino superior.
Em 2026, a escola comemorou mais de 250 aprovações em universidades. Além da preparação para o Enem, a instituição oferece orientação a alunos interessados em outras possibilidades acadêmicas, incluindo processos seletivos internacionais.
O caso de Rute evidencia como o acesso à informação, a dedicação aos estudos, o incentivo familiar e o apoio da escola pública podem ampliar os horizontes de jovens que buscam oportunidades dentro e fora do Brasil.
Sonho de cursar Medicina ainda está de pé
Mesmo com quatro aprovações no exterior, Rute não abandonou o objetivo de estudar Medicina na Universidade Federal do Ceará e se especializar em neurocirurgia. A escolha definitiva dependerá, entre outros fatores, do resultado do Enem e das possibilidades oferecidas pelas instituições internacionais.
Caso consiga uma vaga na UFC, a estudante pretende permanecer no Ceará, estado onde construiu sua trajetória escolar e recebeu apoio para chegar até aqui.
“Se passar no Enem, pretendo ficar aqui, porque acho muito importante estar no nosso estado e ser valorizado por isso”, afirmou.
Enquanto aguarda os próximos resultados, Rute mantém abertas diferentes possibilidades para o futuro. Independentemente da universidade escolhida, suas aprovações já representam uma conquista expressiva para a estudante, sua família e a comunidade escolar da qual faz parte.



