O Tigres do Brasil já foi apontado como um dos clubes de menor porte mais bem estruturados do futebol carioca. Hoje, quase duas décadas depois da inauguração de seu complexo esportivo, a realidade é bem diferente: o clube de Xerém disputa a quinta divisão estadual e tenta reconstruir seu projeto esportivo e financeiro.
Fundado em 2004, o Tigres investiu pesado na construção de um complexo em uma área de aproximadamente 210 mil metros quadrados, em Xerém, distrito de Duque de Caxias. O espaço conta com cinco campos oficiais, academia, refeitório, alojamentos e o Estádio Los Larios, que chegou a receber até 11 mil pessoas.
Na época, a estrutura chamou atenção no futebol do Rio. O Jornal do Brasil chegou a definir o clube como o “primo rico dos pequenos”, enquanto René Simões, então treinador do Fluminense, destacou o centro de treinamento do Tigres como um dos melhores entre os clubes cariocas.
Um projeto que não saiu do papel
Os planos da família Larios iam além do que foi construído. O projeto previa mais três campos, um ginásio, heliporto e até um hotel cinco estrelas no ponto mais alto do terreno.
O desenho do empreendimento continua exposto dentro do complexo, mas boa parte dessas ideias nunca foi concretizada.
Mesmo com uma estrutura considerada acima da realidade dos pequenos clubes, o Tigres não conseguiu transformar o investimento em estabilidade esportiva. A equipe estreou na elite do Campeonato Carioca em 2009, teve dificuldades no primeiro turno, mas reagiu na segunda metade da competição.
O clube chegou a empatar com o Flamengo no Maracanã e goleou o Boavista por 5 a 0. Ainda assim, acabou rebaixado em 2010.
Ao longo dos anos, o Tigres voltou à primeira divisão em algumas oportunidades. Foram quatro participações na elite, mas a última aconteceu em 2017. Naquele ano, Felipe, atual diretor técnico do Vasco, começou o Carioca como treinador, tendo Pedrinho, hoje presidente do clube cruz-maltino, como auxiliar.
Os dois deixaram o Tigres após sete partidas.
Estrutura ainda chama atenção
Apesar dos problemas administrativos e financeiros, o complexo continua funcional.
Além do Estádio Los Larios e dos cinco campos de treinamento, o clube possui área específica para goleiros, dois campos de areia, academia, refeitório e oito chalés utilizados para alojamento.
O estádio está liberado para receber partidas e possui capacidade autorizada de 5.088 torcedores. Os campos também seguem sendo utilizados pelas categorias de base.
Durante uma visita ao local, havia mais de 200 pessoas entre atletas, funcionários e familiares. Nos fins de semana, o movimento aumenta com os jogos das competições de base.
Por outro lado, alguns pontos mostram sinais de falta de manutenção. Há trechos com problemas nas grades, sujeira em partes da entrada e estruturas danificadas após fortes ventos. A piscina também está vazia e perdeu parte da decoração que existia originalmente.
Ainda assim, a estrutura física permanece muito superior à realidade esportiva atual do clube.
O problema está no futebol
Para Aristóteles Larios, presidente do Tigres, manter um complexo desse tamanho exige uma receita que o clube atualmente não possui.
O dirigente explica que, sem fontes recorrentes de renda, a equipe depende principalmente da formação e negociação de jogadores das categorias de base.
O Tigres conseguiu receber valores relacionados a atletas que passaram por sua formação, como Deyverson, Wallace Fortuna e Jefté. Os recursos vieram por mecanismos como o direito de participação em transferências e o mecanismo de solidariedade.
Mas, segundo o presidente, esse modelo não é suficiente para sustentar sozinho uma estrutura tão grande.
A família Larios afirma que os investimentos iniciais no estádio e no centro de treinamento foram feitos com recursos privados, mas que o clube precisa encontrar parceiros para manter o projeto.
Parcerias que não funcionaram
Ao longo de sua história, o Tigres tentou diferentes modelos para manter o futebol profissional.
Nos primeiros anos, uma distribuidora de Xerém foi patrocinadora principal. Depois, o clube estabeleceu uma parceria com o Corinthians, transformando o complexo em uma espécie de base do clube paulista no Rio de Janeiro.
O acordo previa intercâmbio de jogadores e colaboração na captação de jovens. Nesse período, o Tigres chegou a retirar a cor verde de seu escudo e uniforme.
Entre 2018 e 2024, outra empresa passou a administrar o futebol do clube: a Soccer Stars Marketing Esportivo, que também atua em projetos relacionados à Matonense e ao Itumbiara.
O contrato previa que 20% do orçamento anual fosse destinado à manutenção e melhoria do complexo de Xerém. De acordo com a atual direção, porém, os investimentos esperados não aconteceram como planejado.
Para Aristóteles, a escolha de parceiros que não deram o resultado esperado prejudicou diretamente o desenvolvimento do clube.
Dívidas deixaram marcas
Durante esse período, o Tigres acumulou problemas trabalhistas relacionados, entre outros pontos, a atrasos salariais e falta de recolhimento do FGTS.
Segundo a certidão de débitos trabalhistas consultada no Tribunal Superior do Trabalho, o clube foi condenado em 44 processos desde 2013. O número não inclui ações que ainda aguardam julgamento.
As consequências continuam afetando o futebol do Tigres.
Atualmente, o clube está impedido de registrar novos jogadores. A situação chegou a impedir a participação da equipe na Série C do Carioca Sub-20, competição para a qual a direção havia iniciado a preparação.
Dois anos longe das competições
Após o fim da parceria com a Soccer Stars, em 2024, o Tigres solicitou licença à federação e passou duas temporadas sem disputar competições oficiais.
O retorno aconteceu em 2026, na Série C do Campeonato Carioca, com uma equipe formada principalmente por jovens jogadores e atletas das categorias de base.
O Tigres avançou até as quartas de final e enfrentou o Campos com a vantagem do empate para buscar o acesso à Série B2.
A equipe, entretanto, perdeu o primeiro confronto por 3 a 2 e empatou por 0 a 0 no Estádio Los Larios. Com o resultado, o acesso não aconteceu.
A tentativa será retomada na próxima temporada.
Clube busca novos parceiros
A prioridade agora é reconstruir o Tigres gradualmente. A diretoria admite que o clube está longe do patamar esportivo imaginado quando o complexo foi construído, mas considera que a estrutura ainda pode servir como ponto de partida para uma retomada.
O principal objetivo é encontrar investidores e parceiros que tragam recursos suficientes para manter o futebol e, ao mesmo tempo, preservar o patrimônio construído em Xerém.
Depois das experiências anteriores, a direção afirma que pretende analisar com mais cuidado qualquer novo acordo.
A ideia é encontrar um parceiro capaz de oferecer estabilidade financeira e segurança jurídica, evitando que o clube volte a enfrentar os problemas que marcaram os últimos anos.
Enquanto isso, o Tigres segue com uma situação curiosa no futebol carioca: possui uma estrutura física que ainda impressiona, mas precisa reconstruir justamente o projeto esportivo que deveria dar sentido a todo esse investimento.



