Precisamos ser francos e sinceros para refletirmos acerca de um assunto importantíssimo, de caráter de utilidade pública. Contudo, imerso em “tabus”, “clichês”, “senso comum”, preconceitos e conceitos equivocados. Nessa perspectiva, o “Setembro Amarelo” — 10 de setembro, instituído como o Dia Nacional de Prevenção do Suicídio — seu simbolismo, significado, sua importância e a necessidade urgente de se falar constantemente, no que concerne ao que a sociedade não se fala aberta ou claramente, nem muito menos, no restante do ano, precisando, portanto, ser melhor compreendido ou,na pior das hipóteses, desmistificar que saúde mental nunca foi “algo” menos importante.
O escopo proposto não se refere a uma discussão acadêmica rebuscada, não diz respeito a um artigo para publicação em uma revista especializada ou a uma reflexão filosófica profunda,genuinamente profissional, mas a algo que precisa ser debatido de maneira mais informal, popular, direta e acessível, devido ànecessidade de compreensão, ao clamor dos que são acometidosverticalmente, direta e indiretamente, com as doenças relacionadas àsaúde mental, distúrbios, transtornos e suas condicionantes. Arelevância da abordagem exige provocações profundas, urgentes, responsáveis, humanas, olhar atento, sensível, com escuta e acolhimento. As patologias mentais são dores profundas, silenciosas, as quais nem sempre deveriam ser tratadas de maneira medicamentosa, porque são dores não palpáveis, que não se toca com a mão, mas perenes, dolorosas e gritam silenciosamente. Nem toda pessoa que sorri está bem; algumas só aprenderam a sofrer em silêncioe riem para não chorarem.
Banalizar, relativizar ou ignorar a saúde mental, que incomoda, que incapacita pessoas de todas as idades, requer da sociedade e dos poderes públicos constituídos ações práticas, acessíveis, humanizadas, redes de apoio, para que todos tenhamacesso aos cuidados necessários e à compreensão desse processo silencioso e devastador. Pois a capacidade de suportar não se ensina na escola. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), mais de 720 mil pessoas morrem por suicídio anualmente no mundo. Em 2021, o suicídio foi a terceira principal causa de morte entre pessoas de 15 a 29 anos. No Brasil, os dados oficiais são registrados pelo Sistema de Informação sobre Mortalidade (SIM), do Ministério da Saúde, que permite acompanhar a mortalidade por suicídio e sua distribuição segundo diferentes características sociodemográficas.
Nesse contexto, o “Setembro Amarelo” volta os olhares e os ouvidos para quem silenciosamente pede por socorro, precisa de ajuda, talvez minimize o impacto do abandono histórico do Estado, com sua saúde mental comprometida, a depressão, que tendem ao isolamento social cada vez mais, travando uma luta diária parasobreviver, sentindo-se morrendo por dentro a cada dia. É preciso conscientizar sobre os riscos da automutilação, do suicídio e ampliar cada vez mais o diálogo acerca da saúde mental.
Trazer esse diálogo à luz e abertamente tenta-se, entre outros aspectos, denunciar as dificuldades encontradas por quem precisa de ajuda especializada, principalmente na rede pública de saúde, que desemboca na precarização das instituições, dos serviços prestados e na ausência de políticas públicas eficientes em todos os níveis, voltadas para essa grande tragédia humana de cada dia. Em que, muito antes dessa necessidade médica, outros gatilhos históricos fomentam essa epidemia de dor e desesperança. O abandono se apresenta aos pacientes, bem antes de chegar nos consultórios hospitalares, aos CAPS, aos CRAS, aos terapeutas, por razões políticas, econômicas, sociais, parindo uma sociedade fragilizada, adoecida mentalmente, pela fome, pelo desemprego, pela violência, pelo analfabetismo, pela falta de moradia, etc. Não adoecer é a exceção.
O próximo passo é o abandono familiar — por condições socioeconômicas ou por não conseguir acompanhar, cuidar — dos amigos, dos colegas, e as razões são “óbvias”: algumas pessoas — ainda que com seus discursos morais impecáveis — não querem estar ao lado de quem, muitas das vezes, não se encontra em condições de oferecer-lhes algo, pelo contrário. As velhas desculpas das pessoas comuns: “fulano está estranho”, “se afastou porque quis”, então, problema dele.
A saúde mental não pode ser negligenciada; depressão não é frescura, não é “mimimi”, adoece a alma, tornando-se uma dor física, quase sempre, insuportável. É paralisante, incapacitante; mesmo que a pessoa tenha consciência de que precisa cumprir tarefas rotineiras — arrumar a cama, tomar banho, trocar de roupa e trabalhar — ainda assim, muitas vezes não possui ânimo e, em algumas situações, sequer consegue levantar da cama. É patológico, precisa ser acompanhado e tratado por profissionais especializados — psiquiatras, psicólogos, terapeutas, etc. Vale ressaltar que nem tudo se resolve apenas com tarjas-pretas. Muitas das vezes, o paciente sequer é ouvido pelos profissionais como deveria, mas a receita dos remédios, essa sim, nunca falta. O silêncio frente a tudo isso, por boa parte das pessoas em relação às doenças mentais, é gritante! É preciso repensarmos essas práticas e sermos mais solidários, gentis, ferramentas imprescindíveisnessa caminhada, pois não sabemos as lutas que cada pessoa enfrenta.
Ninguém está interessado nessa questão: o poder público, as empresas, muitos adoecidos no próprio ambiente de trabalho — assédio, exaustivas jornadas de trabalho, baixas remunerações —, familiar. O existir, para o depressivo, torna-se a grande dor a ser travada, e as empresas costumam ser as primeiras a abandonarem o funcionário doente: demissão, funcionário “problema”. Teoria e prática nunca caminharam juntas; um sistema que tritura o trabalhador, que não tem a qualidade de vida como princípio, condição básica para sua saúde mental. O mesmo sistema que pariu é o mesmo que fomenta, que ignora e abandona.
Alguns transtornos, como a dependência química, são processos dolorosos, que causam constrangimentos, desagregação familiar, em alguns casos, danos irreparáveis, pauperização das condições socioeconômicas, afastamento, isolamento social e, em algumas situações, o abandono de forma geral, que acaba culminando no autoextermínio. O suicida não quer morrer, ele apenas quer se livrar da dor que deveras sente. Segundo o psiquiatra forense Dr.Guido Palomba: todo suicídio é um alto estado patológico da mente— porque ele se volta contra um instinto primordial —, com raríssimas exceções, como na eutanásia. E remédio psiquiátrico nem sempre é uma solução, camisa de força química. Para o Dr. Palomba, a depressão desencadeada por gatilhos como a falta de dinheiro e o desemprego, por exemplo, não pode ser resolvida apenas com medicação.
Em uma relação verticalizada, o convívio diário para quem acompanha uma pessoa com sua saúde mental deteriorada possui uma sensação de impotência tão substancial que se assemelha ao abraço de afogados, quando se tenta salvar alguém que está se afogando, mesmo sem saber nadar. Comparável à dinâmica de um tsunami, que arrasta tudo e nem sempre acaba inteiro. Uma espécie de coexistência frágil, penosa, em que nem todo mundo consegue sair incólume, ileso desse moedor de gente. A impressão que tenho é que quem cuida precisa estar muito atento para não adoecer junto, como enxurrada em bueiro.É necessário clareza, sensibilidade, empatia, que a depressão, a ansiedade, o sofrimento emocional não são por falta de força e nem é ingratidão.
Para a poetisa Hilda Hilst, “Ninguém enlouquece por ser fraco. Enlouquece por sentir demais num mundo que sente de menos”, esse é o grande poder da arte nesta realidade distópica, de solidão, de dor, do abandono e da surdez coletiva. Com base nesse entendimento, algumas visões filosóficas clássicas e modernas, assim como sociológicas, de pensadores como Platão, Albert Camus, ArthurSchopenhauer e Émile Durkheim, buscaram compreender as relações entre a vida, o viver, o existir e a existência forçada, pesada, além do suicídio. Para Platão, seria um “ato de impiedade”; para Camus, “o único problema filosófico verdadeiramente sério”; para Schopenhauer, “não liberta o indivíduo do sofrimento real”, enquanto para Durkheim, “analisou como um fato social”. Visões estas que nos remetem ainda mais às indagações de tamanho sofrimento, à fragilidade do inevitável, diante dos dilemas humanos.
Muitos artistas, de alguma forma, buscaram revelar, por meiode suas obras, um pouco desse sofrer, dessa dor que é hóspede que não vai embora, que deixa a aquarela da vida sem cor, seja nos versos de Camões ou nas canções de Renato Russo, por exemplo. Na música “A Via Láctea”, Legião Urbana, do álbum A Tempestade de 1996, foi cirúrgica, contundente em seus versos, para expressar tamanha dor do existir, quando diz: “Hoje a tristeza não é passageira / Cada estrela parecerá uma lágrima / Queria ser como os outros / E rir das desgraças da vida / Ou fingir estar sempre bem / Eu nem sei por que me sintoassim / Vem de repente um anjo triste perto de mim / Quando tudo está perdido / Não quero mais ser quem eu sou...”. É de uma dor medonha que ele termina dizendo: “Obrigado por pensar em mim.” Esse é um dos pontos importantes nesse nosso diálogo sobre o “Setembro Amarelo”: observar, escutar, acolher e, de alguma forma,dizer: “Estou aqui, você não está só”. Nas palavras de Tolstói: "Se você sente dor, você está vivo. Se você sente a dor das outras pessoas, você é um ser humano”.
Às vezes, pedir ajuda pode ser a coisa mais corajosa que alguém possa fazer, e não o que pode parecer para alguns, sinônimo de “vergonha” ou “fraqueza”. Pedir ajuda não é desistir; pelo contrário, é se recusar a desistir. Nem sempre é falta de vontade de viver, mas, devido ao intenso sofrimento, já não se consegue mais enxergar caminhos possíveis. A cada minuto, alguém desiste da própria vida. Não é por falta de Deus, de fé ou por ser ateu, agnóstico. Às vezes, é o excesso de dor, porque viver já parece pesado demais. É necessária a escuta, o acolhimento, o respeito, o cuidado diário, menos julgamentos e achismos.
Portanto, que todos os dias do ano sejam “Setembro Amarelo”e que passemos a discutir também sobre as condições para tornar a vida de muitos, no mínimo, digna de ser vivida. Para o psiquiatra, Dr. Luiz Eduardo, para quem perdeu o prazer, a esperança e a capacidade de imaginar um futuro diferente, não continue invisível para a sociedade. Uma campanha sazonal não pode mudar o que precisa ser reestruturado e praticado o ano inteiro.
Marcos Manoel Ferreira, Professor, Pedagogo, Historiador e Escritor. Doutorando pela UFG (Aluno Especial) em Performances Culturais; Mestre em História – Cultura, Religião e Sociedade; Especialista em História e Cultura Afro-brasileira e Africana; Pedagogo com Habilitação em História da Educação Brasileira e Historiador. professormarcosmanoelhist@gmail.com



