O advogado Willer Tomaz de Souza, apontado como alvo de investigação da Polícia Federal ao lado do senador Flávio Bolsonaro (PL), movimentou cerca de R$ 5 bilhões em apostas on-line em 2025 e realizou saques que somaram quase R$ 200 milhões em uma plataforma de apostas. As informações constam em documentos do Ministério da Fazenda obtidos também pelo JOTA.

De acordo com os registros, Willer teria sido a pessoa que mais depositou dinheiro em plataformas de apostas no Brasil, com aportes de R$ 258 milhões — aproximadamente o dobro do valor registrado pelo segundo colocado no levantamento. As movimentações foram realizadas por meio da Blaze, plataforma controlada pela empresa Foggo Entertainment.


Uma nota técnica da Fazenda aponta que o usuário realizou mais de 36 mil apostas ao longo do ano passado. Nesse período, teria registrado ganhos próximos de R$ 5 bilhões e perdas de valor semelhante, segundo o documento. Os números incluem sucessivas reapostas de valores já movimentados, e não necessariamente representam dinheiro novo ou lucro líquido nesse montante.


O relatório também identificou operações financeiras de valores elevados e realizadas em sequência. Em um único dia, por exemplo, foram registrados 14 depósitos de R$ 500 mil, distribuídos entre manhã, tarde e noite, totalizando R$ 7 milhões. No dia seguinte, outras 12 retiradas de R$ 500 mil teriam sido realizadas em apenas 18 minutos, somando R$ 6 milhões.


Segundo a análise técnica, o volume e a frequência das transações levantaram questionamentos sobre os mecanismos de controle da plataforma, especialmente em relação à prevenção à lavagem de dinheiro e a outras operações financeiras suspeitas.


Fazenda aponta possíveis falhas na comunicação de operações suspeitas

O Ministério da Fazenda identificou indícios de que a empresa responsável pela plataforma pode não ter comunicado adequadamente às autoridades movimentações consideradas suspeitas. A pasta recomendou a apuração da conduta da Foggo Entertainment e a possibilidade de abertura de um processo administrativo sancionador, além da adoção de medidas preventivas.

No documento, a equipe técnica questionou se os mecanismos internos de monitoramento da empresa foram suficientes diante dos valores movimentados. A nota também destacou que operações com grandes quantias podem exigir análise específica, mesmo quando não há lucro expressivo, uma vez que movimentações sucessivas podem, em determinadas circunstâncias, servir para ocultar a origem de recursos.


As observações do Ministério da Fazenda apontam possíveis falhas de fiscalização e comunicação, mas não constituem, por si só, comprovação de que os recursos movimentados tenham origem criminosa.

Investigação também envolve Flávio Bolsonaro

O caso ganhou repercussão política por causa da relação de Willer Tomaz com Flávio Bolsonaro, senador e candidato do PL à Presidência da República, segundo o cenário descrito na reportagem original.


Conforme informações atribuídas ao Estadão, a Polícia Federal investiga uma possível atuação conjunta dos dois em um suposto esquema de lavagem de dinheiro. Já a jornalista Malu Gaspar, de O Globo, noticiou que Flávio teria utilizado uma conta offshore vinculada à empresa Alcazar Holdings, administrada por Tomaz.


Procurado pela imprensa, Flávio negou ter mantido uma conta conjunta com o advogado. As informações divulgadas não estabelecem, por si só, que o senador tenha participado das movimentações realizadas na plataforma de apostas.


Advogado nega irregularidades

Em nota enviada por sua assessoria, Willer Tomaz afirmou que os recursos possuem origem lícita, são compatíveis com seus rendimentos e estão declarados à Receita Federal. Ele também contestou os valores divulgados, argumentando que o volume total de apostas inclui reapostas sucessivas do mesmo dinheiro e, portanto, não corresponde à entrada de novos recursos na mesma proporção.

O advogado negou ter utilizado ferramentas automatizadas ou fracionado operações para escapar de mecanismos de controle. Também afirmou que sua relação com a plataforma 7K se limitou à condição de cliente, sem vínculos societários, comerciais ou pessoais com a empresa ou seus controladores, e declarou não ser alvo da Operação Narco Bet.


Tomaz ainda questionou a divulgação de informações que classificou como protegidas por sigilo e afirmou que o assunto está submetido ao Judiciário. A Blaze, por sua vez, não havia respondido aos questionamentos até o fechamento da reportagem original.