A trajetória política de Flávio Bolsonaro (PL), candidato à Presidência da República, reúne episódios de apoio a policiais investigados por crimes graves, homenagens a agentes posteriormente condenados pela Justiça e posicionamentos contrários a medidas voltadas à restrição do acesso a armas por profissionais da segurança acusados de violência doméstica. Os casos voltaram a ganhar destaque em meio à campanha eleitoral de 2026.
Em 2009, quando era deputado estadual no Rio de Janeiro, Flávio foi o único parlamentar a votar contra um projeto que previa a suspensão preventiva do porte e da posse de armas de policiais denunciados por agressões contra mulheres. A proposta foi aprovada pela Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj) e transformada na Lei Estadual nº 5.402/2009.
Na ocasião, Flávio argumentou que policiais poderiam sofrer injustiças antes de terem garantidos o direito à ampla defesa e a presunção de inocência. O posicionamento contrasta com suas atuais promessas eleitorais de endurecer as punições para agressores e ampliar o monitoramento eletrônico de autores de violência doméstica.
Atuação na defesa de policiais acusados de homicídio
Além de sua atuação parlamentar, Flávio Bolsonaro trabalhou como advogado na defesa de policiais militares acusados de envolvimento em mortes. Em 2024, assinou um recurso no Superior Tribunal de Justiça (STJ) em favor do cabo Bruno Dias Delaroli, denunciado pelo Ministério Público do Rio de Janeiro pela morte de Ana Clara Machado, uma menina de cinco anos.
A criança brincava na porta de casa, em Niterói, em fevereiro de 2021, quando foi atingida por um disparo de fuzil durante uma ação policial. Segundo a acusação, o agente atirou em direção a uma área residencial e continuou disparando mesmo após pessoas gritarem que havia moradores no local.
A perícia encontrou estojos de munição compatíveis com a arma do policial e não identificou marcas de tiros na viatura, contrariando a versão apresentada pelo acusado sobre um confronto anterior. O recurso apresentado pela defesa buscava anular a decisão que levou o caso a júri popular, mas o pedido foi rejeitado pelo STJ.
Flávio também participou da defesa de outros quatro policiais militares denunciados por uma emboscada que terminou com quatro pessoas mortas no Morro do Vidigal, no Rio de Janeiro, em 2020. De acordo com o Ministério Público, os agentes teriam preparado uma ação que impediu as vítimas de reagir.
Homenagens a agentes ligados a milícias
Outro ponto controverso de sua trajetória envolve homenagens concedidas a policiais que, posteriormente, foram investigados ou condenados por crimes. Em 2003, Flávio concedeu uma moção de louvor ao então tenente da Polícia Militar Adriano Magalhães da Nóbrega. Dois anos depois, entregou a ele a Medalha Tiradentes, a mais alta honraria da Alerj, quando o policial estava preso preventivamente por suspeita de participação em um assassinato.
Anos depois, Adriano foi apontado pelas autoridades como líder da milícia de Rio das Pedras e chefe do chamado Escritório do Crime, grupo associado a execuções. Ele foi morto em uma operação policial na Bahia, em 2020. Flávio afirmou posteriormente que, na época da homenagem, considerava o policial exemplar e que não poderia prever os acontecimentos posteriores.
A relação também envolveu nomeações para o gabinete parlamentar de Flávio. A mãe e a ex-esposa de Adriano foram contratadas como assessoras comissionadas. As nomeações foram articuladas por Fabrício Queiroz, ex-assessor que recebeu homenagem do então deputado e foi apontado pelas investigações como figura central no esquema conhecido como rachadinha.
Em outro episódio, Flávio concedeu uma homenagem ao então capitão Ronald Paulo Alves Pereira, em 2004, meses depois de ele passar a ser investigado por suspeita de envolvimento na Chacina da Via Show. Posteriormente, Ronald foi apontado nas investigações como integrante do Escritório do Crime e, em março de 2026, condenado pelo Supremo Tribunal Federal a 56 anos de prisão por sua participação no planejamento do monitoramento e da execução da vereadora Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes.
Já durante seu mandato no Senado, o gabinete de Flávio destinou R$ 200 mil em emenda parlamentar a um projeto esportivo na Taquara, zona oeste do Rio. Segundo reportagem da revista Piauí, o pedido foi feito por Robson Calixto Fonseca, conhecido como Peixe, que posteriormente foi condenado por integrar a organização criminosa armada envolvida no assassinato de Marielle Franco.
Declarações sobre milícias e críticas à magistrada assassinada
A atuação política de Flávio também foi marcada por críticas à Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) das Milícias, instalada na Alerj em 2008. Na época, o então deputado argumentou que não se deveria estigmatizar esses grupos e afirmou que policiais e bombeiros envolvidos em milícias poderiam levar tranquilidade a bairros da zona oeste do Rio.
Em 2011, após o assassinato da juíza Patrícia Acioli, executada com 21 tiros em Niterói, Flávio publicou uma mensagem nas redes sociais afirmando que a magistrada teria contribuído para conquistar inimigos ao humilhar policiais durante sessões judiciais. A declaração provocou críticas de entidades ligadas à magistratura.
Um levantamento publicado pela revista Piauí identificou pelo menos 23 policiais e integrantes das Forças Armadas homenageados por Flávio entre 2003 e 2018 que posteriormente se tornaram réus ou foram condenados por crimes como homicídio, corrupção e desvio de recursos públicos.
Entre eles estava o major Edson Raimundo dos Santos, homenageado em 2008 e posteriormente condenado a 13 anos e sete meses de prisão por sua participação no caso Amarildo, envolvendo tortura e morte do ajudante de pedreiro na Rocinha.
O que diz a defesa de Flávio Bolsonaro
Sobre o voto contrário à restrição de armas para policiais acusados de violência doméstica, a assessoria do senador afirmou que sua posição sempre esteve ligada à defesa do contraditório, da ampla defesa e da presunção de inocência. A campanha também destacou propostas de acolhimento psicológico e assistência jurídica às mulheres.
Em relação às homenagens concedidas a agentes investigados, Flávio já declarou que sua atuação sempre buscou reconhecer o trabalho dos profissionais de segurança pública e que aqueles que cometem crimes devem responder por seus atos.
Sobre sua atuação como advogado de policiais acusados de homicídio, os escritórios envolvidos e a assessoria do senador não se manifestaram, segundo as reportagens originais citadas no material.



