O senador e candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL) afirmou, nesta sexta-feira (16), que pretende incluir o Brasil no chamado Escudo das Américas, iniciativa liderada pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que prevê cooperação militar e de inteligência entre Washington e países latino-americanos. O projeto também abre espaço para operações diretas de forças norte-americanas em territórios de países aliados.


A declaração foi feita durante entrevista ao Jornal Nacional, da TV Globo. Na ocasião, Flávio defendeu a participação brasileira na aliança como uma estratégia para combater organizações criminosas e ampliar o compartilhamento de informações de inteligência, especialmente na região da Tríplice Fronteira, próxima a Foz do Iguaçu, no Paraná.

“O Brasil vai fazer parte do Escudo das Américas para ter intercâmbio de informação e inteligência para a gente combater o terrorismo na Tríplice Fronteira”, declarou o candidato, sem apresentar detalhes sobre quais atividades classificadas como terroristas estariam ocorrendo na região.

Flávio também afirmou que, caso seja eleito, pretende classificar facções criminosas brasileiras, como o Primeiro Comando da Capital (PCC), o Comando Vermelho (CV) e as milícias, como organizações de “narcoterrorismo”. A proposta segue a linha adotada pelo governo Trump, que utiliza essa classificação para justificar medidas mais duras contra grupos criminosos na América Latina.


A utilização do termo, porém, envolve consequências políticas e jurídicas. Nos Estados Unidos, a classificação de determinados grupos como organizações terroristas pode ampliar os instrumentos legais disponíveis para o governo norte-americano. Dependendo da natureza da operação militar, essa justificativa também pode ser utilizada para sustentar ações fora do território dos EUA, embora as exigências legais variem conforme o caso.


Atualmente, 15 países integram o Escudo das Américas, incluindo Argentina, Bolívia, Chile, Colômbia, Equador, Paraguai, Peru e outras nações da região. Segundo o texto original, Colômbia, Equador e Paraguai já autorizaram o deslocamento de tropas norte-americanas para seus territórios.


Lula rejeita classificação de facções brasileiras como terroristas

Um dia antes da entrevista de Flávio, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), também entrevistado pelo Jornal Nacional, rejeitou o enquadramento das facções criminosas brasileiras como organizações terroristas nos moldes defendidos por Trump.


Lula argumentou que o objetivo desses grupos é principalmente financeiro e que a situação brasileira não deve ser confundida com o terrorismo de Estado ou com ataques políticos, como os atentados de 11 de setembro de 2001, nos Estados Unidos.


O presidente reconheceu que facções criminosas aterrorizam comunidades brasileiras, mas defendeu que o enfrentamento ao crime organizado seja conduzido por meio da cooperação entre os países, sem necessariamente adotar a classificação de narcoterrorismo.


Durante a entrevista, Lula afirmou que seu governo já apresentou a Trump uma proposta de colaboração contra o tráfico de drogas e as organizações criminosas, com participação da Polícia Federal brasileira e aproveitamento da experiência acumulada pelas forças de segurança nacionais.

As declarações evidenciam duas abordagens distintas para o combate ao crime organizado: enquanto Flávio Bolsonaro defende a adesão brasileira à iniciativa norte-americana e a classificação de facções como grupos narcoterroristas, Lula prioriza a cooperação internacional sem adotar esse enquadramento.