As históricas vergonhosas feridas nacionais evisceraram ainda mais, exalando o fétido odor do abandono, da precarização e do triunfo da parvoíce. A educação mundial foi impactada bruscamente e se viu obrigada a passar por mudanças radicais muito rapidamente. Além da exclusão, também digital — mundialmente, 1 em cada 3 estudantes — dos já excluídos, não possuem acesso aos meios digitais, como ferramentas educacionais. A grande preocupação com os discentes e seu processo de aprendizagem, foi o escopo constante durante a pandemia — além de novas preocupações que foram surgindo pelo caminho —, o que é justificável e exigiu ações rápidas que minimizassem ao máximo o impacto social, econômico, educacional e psicológico, cabendo aos professores, a responsabilidade e a condução desse processo. Contudo, as aulas remotas revelaram muito mais que uma alternativa, uma possibilidade; tornaram-se objeto de reflexão, a partir do momento, em que o professor se tornou um espectro, invisível, além de uma constante ameaça, claro.
O nível de empatia, deferência e o apoio dispensado aos professores, durante e após a pandemia, por parte de alguns — diretores, alunos, pais, sindicatos e governos — foi algo oprobrioso. A começar pelo não envolvimento dos educandos durante as aulas, sempre, em grande parte, distantes, camuflados e ferrenhos no pleno exercício do direito de reclamarem, salvo raríssimas exceções.
Tornou-se um ultraje para alguns estudantes, pais e dirigentes empresariais de instituições escolares implorar-lhes, para que ligassem a webcam de seus respectivos aparelhos durante as aulas; tornou-se um gesto, por parte dos professores, de vitupério. Motivo de advertências e ameaças de demissão para o profissional que o fizesse, sob o impropério de que os professores “estavam constrangendo os estudantes”. Direito pleno do aluno é usurpado do professor fantasma.
Entendo, em parte, que, se é direito do mais interessado em assistir à aula com a câmera desligada, deveria ser também direito do mais necessitado. Na verdade, na maioria das vezes, não houveram aulas, houveram longevos e enfadonhos monólogos, para os “você sabe com quem está falando?”. Os estudos antropológicos de Roberto da Matta revelam e explicam. Com raríssimas exceções — que fique claro —, “as telas sempre às escuras” nunca responderam aosinúmeros: “bom dia, boa tarde, boa noite, como vocês estão, alguma dúvida?”. “Até amanhã”, etc., dos incansáveis professores. Alguns alunos nunca tiveram a hombridade de abrir o microfone para um cumprimento, uma reciprocidade, um gesto mínimo de empatia, numa demonstração mínima de educação, princípios elementares, ainda que tacanha, em um cenário quase mediúnico: “Fulano, você está aí?Manifeste-se!” Não muito diferente das aulas presenciais, infelizmente.
Não obstante, eram ágeis nas interlocuções conspiratórias, para tecerem críticas infames às aulas que nunca assistiram, com as quaisnunca interagiram, das metodologias que sequer percebiam, mesmo nunca se fazendo presentes — ainda que estivessem imersos na invisibilidade espiã. Alguns, se aproveitando do falso “anonimato” da câmera e do microfone, desligados, para ao menos, demonstrarem o interesse que nunca tiveram e a empatia pelo professor explicitado um pouco mais na pandemia, ignorando o saber, o conhecimento, típico de um país, em que as instituições escolares e seus responsáveis legais, legitimam comportamentos constrangedores, afirmando que “não poderiam exigir que o cliente abra a câmera durante às aulas, para não constrangê-los, para não contrariá-los, para não saírem e osprofessores, não percam seus respectivos empregos”. Coube aos professores e professoras terem a coragem para enfrentar mais essedesafio, as dificuldades, a realidade com hombridade e empatia.
Assistimos a um conluio deplorável, a uma rede de cumplicidade, a uma inversão de valores generalizada e constrangedora. É, no mínimo, incômodo, perturbador e notório, a total falta de interesse em assumirem responsabilidades, atribuindo o fracasso da educação brasileira tão somente à escola, ao professor, isentando os demais sujeitos envolvidos no processo de qualquer compromisso com a questão, o ensino, o exercício profissional do magistério. Desvelou uma dura realidade: a falta de empatia pelo professor fantasma, real e presente, apenas os alunos que nunca estavam lá. Para muita gente, foi necessária uma pandemia para perceberem a importância da escola e a valorização da educação — não como depósito dos filhos indesejados —, mas o papel desempenhado pelo professor nesse embate e nesse processo.
O escárnio durante a pandemia por parte de algumas ilibadasautoridades públicas, gestores de negócios educacionais, ao zurraremque os professores “não estavam trabalhando ou não queriam trabalhar”, “vagabundos” e oportunistas de plantão — na sonora estupidez de alguns políticos, justiça seja feita, o deleite do ignorantereside na sua limitada capacidade cognitiva. Realmente, o isolamentonão ensinou muito, apenas evidenciou ainda mais a invisibilidade desrespeitosa pelo professor e a precarização do seu trabalho. “Se queres destruir uma civilização, despreza o professor, humilha o médico, marginaliza o sábio e dá valor aos insignificantes”, afirmou Malek Bennabi.
Talvez a grande lição legada seja a insuficiência moral e intelectual para os fervorosos defensores do modelo educacional homeschooling. O isolamento social obrigou muitos genitores a serem pais e mães de alguma forma; tiveram que interromper a terceirização dos próprios filhos. Obrigou alguns reprodutores a fazerem o que nunca fizeram: ser família de verdade, que acolhe, que respeita, que ama, que cuida, que educa, que protege, que ouve, etc. Alguns pais querem opinar sobre tudo, mas não participam de nada. Enquanto isso, os filhos passam mais tempo ouvindo coaches e influenciadores doque o próprio pai.
A instituição escolar e seus profissionais sempre assumiram papéis que seriam dos pais, dos responsáveis. O isolamentoevidenciou uma realidade lamentável, dando a nítida impressão de que alguns pais não aguentam a convivência diária, não suportam ospróprios filhos, não conseguem auxiliá-los numa atividade de alfabetização e arrotam empáfia — descrita nos estudos de Roberto da Matta — de que não precisam da escola e de seus reles professores. Intelectuais que estudam, se qualificam a vida inteira, para se ajoelharem aos pés da ignorância e de seus devotos. “São eles quepagam seu salário”, vociferam os cúmplices. Quanto mais nossos clientes nos ignorarem, melhores deverão ser nossas aulas, porque, se eles saírem, perderemos nossos empregos no moedor de dignidade que fomentam uma educação instituída para não dar certo. A saúde mental dos profissionais da educação, mesmo sendo um dos maiores motivos de afastamentos do trabalho, continua sendo ignorada em todos os níveis e instâncias, fomentando os ataques e as perseguiçõessistemáticas aos professores. Segundo a professora Irene Reis, “uma escola saudável começa pelo cuidado com a saúde mental de quem educa”.
A não valorização é vexatória. A pandemia escancarou ainda mais essas mazelas da educação: a marginalização dos professores, os contínuos ataques à ciência, às universidades, o obscurantismo que tem invadido algumas instituições escolares, numa histeria de estupidez assustadora. Legitimando alguns parlamentares agnorantes, representante legítimo da vontade popular, atacar o professor devagabundo é compreensível na sua cosmovisão, “porque o pensamento crítico é o maior pesadelo de quem precisa da ignorância para se manter no poder”. É o que Hannah Arendt afirmou: “O mal não precisa de monstros. Precisa de pessoas que pararam de pensar.”Considerando isso, ser professor é uma ação profissional e um ato de resistência, porque o pensamento crítico é transformador e ainda é o que faz toda a diferença.
Contudo, algo é inegável: muitos desses jovens clientes são vítimas do abandono afetivo e intelectual de suas “famílias de bem”,são negligenciados e a escola, novamente, assume o protagonismo, o papel que muitos pais se recusam, o de serem pais. Exigem uma postura do outro — professor — numa espécie de compensação do fracasso e das frustrações pessoais, concedendo carta-branca aos filhos, respaldados pelas mensalidades que compram e pagam tudo dentro do espaço educacional, inclusive o respeito, a deferência. Quando a família desautoriza o professor, o aluno aprende a desrespeitar os dois. Um passe-livre para fazerem o que quiserem, a soberba de uma geração que não pode ser contrariada, com condutaspreviamente avalizadas pelos pais e respaldadas por quem deveriaeducar.
Portanto, por essas e por outras, a efeméride pelo Dia do Professor seja de reflexão. Governos, proprietários de escolas particulares e a sociedade em geral pensem no apagão de professores,que já desponta no horizonte sombrio brasileiro. O exercício do magistério não é sacerdócio, não é caridade, não é tão somente por amor; é um exercício profissional e político. Porque educação para todos é um direito. Ser professor é ser intelectual, pesquisador e com qualificação acadêmica. É acreditar no outro, no nosso aluno, sob a perspectiva de que “se você sente dor, está vivo. Se você sente a dor das outras pessoas, você é um ser humano”. Isso é ser professor, é acreditar na capacidade de transformação de uma sociedade, pela educação, pelo conhecimento. Pois a educação só é transformadoraquando tem por princípio a inclusão, o respeito, a diversidade e a tolerância, gerando cidadãos críticos, felizes e autônomos. Romantizar a exploração dos professores e professoras, a precarização do trabalho, os baixos salários, os ataques constantes e o desrespeito, tentardesqualificar, dar invisibilidade à luta histórica dos professores, énegar essa realidade. Por isso, “é preciso estar atento e forte” e ser insistentemente combatida toda e qualquer forma de romantização e resiliência reles.
Professor Fantasma
Não é pseudônimo, nem anonimato. É no que nos transformaram, persona non grata.
Marcos Manoel Ferreira, Professor, Pedagogo, Historiador e Escritor. Doutorando pela UFG (Aluno Especial) em Performances Culturais; Mestre em História – Cultura, Religião e Sociedade; Especialista em História e Cultura Afro-brasileira e Africana; Pedagogo com Habilitação em História da Educação Brasileira e Historiador. professormarcosmanoelhist@gmail.com


