A discussão sobre a proibição das bets precisa superar o
campo ideológico e ser tratada como uma questão para além da liberdade
individual. Não importa se a medida vem da esquerda ou da direita: o que deve
estar em primeiro lugar são seus efeitos sobre a população. Estamos falando de saúde
pública, endividamento, desigualdade e bilhões de reais retirados das famílias
brasileiras. Proteger o cidadão
não deveria ser uma pauta ideológica, mas uma responsabilidade de quem
realmente coloca o interesse do país acima da disputa política
Somente em 2025, as famílias perderam R$ 62,5
bilhões para as bets, enquanto as plataformas movimentaram quase R$ 351
bilhões em transações via Pix. É dinheiro que poderia estar pagando contas,
comprando alimentos, movimentando pequenos comércios, financiando serviços e
circulando pela economia real. (dados divulgados no Boletim Fiscal dos Estados, do Comitê Nacional de Secretários
de Fazenda)
Quando uma família pobre perde dinheiro em uma aposta,
não perde apenas o valor depositado na plataforma. Perde poder de compra. O
dinheiro deixa de circular no bairro, no comércio e entre trabalhadores e passa
a alimentar um modelo de negócio no qual o lucro depende justamente da perda de
quem aposta
É por isso que a discussão econômica, mas sobretudo
social, sobre as bets é tão importante. Se o dinheiro do trabalhador
deixa de circular na economia para alimentar uma indústria de apostas, quem
realmente está ganhando com isso?
Não é uma escolha tão livre
quanto parece
Existe ainda uma diferença fundamental entre as bets e
outras formas de vício: a exposição permanente
O cassino está dentro do celular. A pessoa recebe
anúncios, bônus, mensagens e é bombardeada por publicidade de influenciadores, celebridades
e figuras públicas, que, em tese, deveriam representar uma font de segurança e
confiança
Não se trata simplesmente de colocar um aplicativo no
celular e esperar que cada indivíduo tenha autocontrole absoluto. Existe um
sistema inteiros de engrenagens atuando em complementação para fazer o usuário
apostar novamente
O problema chegou inclusive aos adolescentes: A Agência Brasil, na reportagem “Saiba como as bets adoeceram e endividaram os brasileiros”, cita no levantamento apontado que 20,4% dos estudantes dos anos finais do ensino fundamental e do ensino médio já haviam feito apostas online, enquanto 9,5% dos estudantes de 11 anos disseram já ter apostado
E o resultado pode ser devastador.
Há relatos de pessoas que perderam emprego, carro, casa,
relações familiares e não só chegaram a apresentar pensamentos suicidas, em consequência
das dívidas, como também o cometeram
Diante disso, dizer simplesmente que "aposta quem
quer" é uma maneira confortável de ignorar todo o mecanismo maligno que
existe por trás dessa escolha
A hipocrisia de quem vende o sonho
É impossível não questionar também o papel dos (des)influenciadores.
Durante anos, milhões de brasileiros foram convencidos
por pessoas de grande impact social que apostar poderia ser divertido,
lucrativo ou até uma oportunidade de mudar de vida. Muitos desses “influenciadores”,
entretanto, não estão colocando o próprio patrimônio em risco. Eles
recebem para convencer o público a colocar seu próprio dinheiro
É aí que o discurso de defesa das bets se torna, no
mínimo, questionável. O influenciador ganha pelo anúncio. A plataforma ganha
quando o usuário aposta. E o apostador fica com a promessa de que, na próxima
tentativa, finalmente recuperará o que perdeu
O problema é que a próxima tentativa pode ser justamente
aquela que destrói o orçamento de uma família
O limite também protege a democracia
O filósofo Karl Popper formulou o conhecido paradoxo da tolerância: uma sociedade tolerante é aquela que utiliza de medidas para garantir que a intolerância não destrua a convivência democrática
A ideia pode ser aplicada ao debate sobre as bets
Estabelecer limites, no caso em especial a proibição
total das bets, não significa necessariamente abandonar a democracia ou a
liberdade. Pelo contrário: algumas restrições são necessárias,
justamente, para preservar a liberdade das pessoas diante de correntes que
exploram sua vulnerabilidade. – garantir a prosperidade do país e promover o
sentimento nacionalista são atitudes para além do discurso infundamentado e
ausente de atitudes: o prestigio do Brasil se valida através de ações concretas
que promovam a proteção do cidadão brasileiro e a garantia de que a pobreza e
desigualdade social vividas por ele não sejam fontes “enraizadoras” e
determinantes para todo sua trajetória de vida, mas se consolidem como contexto
de superação
A liberdade de apostar não pode servir como
justificativa para permitir que uma indústria bombardeie a população com
publicidade, bônus e promessas de enriquecimento enquanto bilhões são retirados
das famílias. E bipolaridade vivida pelo brasil não deve servir de muleta parao
veto de atitudes, no mínimo, decentes
A democracia que tolera não deve aceitar todo e qualquer
comprtamento em seu nome
Às vezes, proteger a liberdade significa justamente
dizer não a quem transforma a vulnerabilidade do cidadão em um
modelo de negócio tão predatório e desumanizadr, que transforma vidas humanas
em simples mercadoria
No fim, talvez as perguntas mais simples sejam também as mais incômodas: se
as bets são realmente tão boas e lucrativas quanto os influenciadores dizem,
por que eles não colocam o próprio dinheiro no jogo? E se “Brasil acima de tudo” significa
colocar o Brasil e os brasileiros em primeiro lugar, por que não defender com a
mesma força medidas que protejam o povo brasileiro?
Nota da autora: Este artigo foi elaborado a partir de informações e dados
apresentados na matéria da Agência Brasil, “Saiba como as
bets adoeceram e endividaram os brasileiros”, publicada em 27 de setembro
de 2026, além dos documentos e fontes reunidos no material analisado. A
reportagem reúne dados sobre perdas financeiras, endividamento, publicidade,
impacto entre jovens e consequências do vício em apostas.
Ana Júlia da Mata Silva Justino



